Ensaios Lineares

  • 2024
  • Pinakotheke Cultural, Rio de Janeiro

ANA HOLCK: AS RETAS QUE SE REVELAM CURVAS

Comecemos pela quina da sala. O trabalho Entroncados Canto VI perturba os fundamentos da arquitetura. Quando Ana Holck decide pelo encontro de duas paredes, ela ocupa uma posição por milênios preenchida pelas pilastras, as quais, segundo o vocabulário arquitetônico clássico, são encimadas por capiteis. Na gênese da arquitetura ocidental está o capitel da ordem jônica caracterizado pelo par de volutas: tais formas não são adornos, mas advêm de séculos de aprimoramento geométrico dos helênicos para o encontro das proporções áureas de decrescimento do raio do círculo, objetivando uma espiral mais perfeita do que a encontrada em um caracol na natureza. Um tanto empiricamente, ou talvez pelo subconsciente, Holck desmesura esse modelo geométrico. O cânone arquitetônico de busca do perfeito equilíbrio da forma é rechaçado na sua combinação de porcelana e aço inox. Seus Entroncados são fitas contínuas, porém distorcidas na vitória da força centrífuga sobre a centrípeta. Ao lançar parabolicidades assimétricas sobre o espaço, desestabiliza-se a harmonia entre as partes tão almejada desde a Era Clássica até a Modernidade na arquitetura.

Isto é silenciosamente reafirmado pela artista no Móbile I, constituído por curvas que o compasso não proporciona e centralizado por uma reta avessa à linearidade da régua.

Nos Laçados, a exacerbação dos giros e elipses não é uma operação barroca, porque não é proliferação para reafirmação, mas gestualidade de obsessiva contestação às regras. A arquitetura incomoda Ana; e, por sua vez, Ana desafia a arquitetura.

As referências à arquitetura não são fortuitas. É a profissão pela qual Ana Holck se formou na universidade. Também se tangencia no ofício do pai engenheiro-calculista. E se escancara no léxico – pontes, passarelas, perimetrais, grades, torres – dos títulos dos trabalhos expostos nesta mostra panorâmica da trajetória de duas décadas e meia.

De 2012, a série Perimetrais é um registro da via expressa ainda recordada por qualquer carioca acima dos 15 anos de idade. Ana Holck secciona a quilométrica e curvilínea linha que cindia o centro da cidade e a baía de Guanabara. As gravuras evidenciam a diversidade de desenhos estruturais – perímetros – ao longo da megalômana infraestrutura urbana. Tal como cortes nos projetos arquitetônicos ou radiografias na medicina, as seções de cada trecho da Perimetral são delineadas por linhas retas. A curvatura do comprimento do viaduto no mapa é suprimida pela representação das fatias. Ao evocar a memória, discernimos as retas que se revelam curvas.

Esta ideia também se faz presente na série Pontes Vinílicas quando, ao fazer uma estrutura tensionada, a artista engendra dois arcos a partir de seções de retas. É uma operação de decomposição geométrica da curva. Entretanto, é preciso estar atento a uma subversão tectônica de Ana Holck: há uma alusão às pontes de aço feitas por engenheiros como Gustave Eiffel, Benjamin Baker e John Fowler que, na virada do século 19 para o 20, venceram vãos antes inalcançáveis, mas a artista revisita os mesmos princípios estruturais com o despretensioso puxar e repuxar de fitas de vinil envolvidas por caixas de acrílico. A magnitude e o heroísmo da inovação técnica dos engenheiros são esvaziados na singeleza dos materiais de Holck.

Com as Pontes Cerâmicas, seguimos fora do campo da literalidade ou das maquetes. Com uma porcelana delicada, a artista apresenta o equilíbrio estrutural sob leve imperfeição: uma forma regularmente constituída por elementos metálicos é refeita sob a égide da mão – tal como uma inversão da marcha histórica da evolução das cadeias produtivas, Holck apropriou-se um modelo industrializado e o converteu em artesanal. Tais Pontes Cerâmicas aparentam estar suspensas num momento de construção que não finda, permanecendo em um vaivém entre o projetado e o incidental. Essa correspondência com o canteiro de obras reaparece na série Torres Armadas, com trabalhos compostos por elementos de concreto pré-moldado para cercas. Esse material de catálogo de construção civil tem seu propósito funcional absolutamente desconsiderado. Confere-se uma dimensão escultórica a um elemento pragmático e banal. O valor artístico reside em questões formais como o arranjo em tríade e a verticalidade encontrada numa disposição autônoma de fundações no solo.

O tênue equilíbrio encontrado em meio a uma tensão estrutural regressa nas Passarelas de Ana Holck. É também uma composição de linhas curvas e retas tal como as Pontes. As Passarelas de 2011 são, sobretudo, um prenúncio dos Entroncados, Enroscados e Estirados de 2023 e 2024 no que tange a recusa à planaridade e a ambição de lançar-se no espaço sem se desprender da parede da qual irrompe.

Emergir do plano vertical é igualmente um pressuposto para a série Grades. Tais trabalhos se destacam por friccionarem o rigor da modulação própria à minimal art. Perdura a lógica do grid em sua ordem regular, na correlação dos eixos, na repetição das linhas e na equidistância entre as partes, mas toda severidade métrica é sutilmente amolecida por Ana Holck.

Não raro o primeiro ato dos arquitetos frente a uma folha em branco é desenhar uma grelha quadricular para estabelecer as proporções da edificação em concepção; por sua vez, com as Grades compostas por retas não retilíneas, a artista fere o ato fundacional de projetos de arquitetura.

[Francesco Perrotta-Bosch]

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